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Apresentação de Sidónio Bettencourt no lançamento do livro Filarmónica Liberdade Lajense -Comemoração -150 Anos, de Ermelindo Ávila

Categoria: Cultura
Publicado em terça, 02 setembro 2014, 12:46
Atualizado em quarta, 03 setembro 2014, 09:19

SB2014 29-08

Lançamento do livro
Filarmónica Liberdade Lajens- 150 Anos 
Ermelindo Ávila

Por: Sidónio Bettencourt

Sentado na sala do ensaio, poucas horas antes do tradicional jantar de aniversário, de convívio de aniversário, antes, da imagem passar por entre velas acesas nas preces da noite, e da noite entoar ”Avé Maria” no ritual peregrino de promessa; antes de Nossa Senhora de Lourdes cumprimentar a Liberdade Lajense, na pose secular de um hino, eis-me olhando no Tempo dos regressos, os lugares e as pessoas, os momentos, a memória e as saudades. Apetece-me recitar um verso de grande dramaturgo açoriano, Norberto Ávila, do seu emblemático poema Sanguinhal: 

“agora me comovo e quase choro/ eu, um intruso nesta casa anónima/ esta casa pequena de nada sei/ e que tanto me deixa imaginar/ nos percursos que vão do nascimento à morte/ com demoradas passagens pelo amor ”.
Tudo parece antigo e primordial.
O desfile da festa, de todas as festas das Lajes, passa por este recanto. Do baile de Lourdes à festa de São Pedro, onde de portas sempre abertas se pode comer as santificadas sopas e as doces e saborosas rosquilhas de açafate da Irmandade, filhas legítimas da partilha do Espírito Santo e daquele como, Fernão Álvares Evangelho- primeiro povoador da ilha- que á Ribeira do Meio foi matar a sede e abastecer-se na terra farta, ou Frei Pedro Gigante, que fundou a primeira igreja da ilha,- a secular Ermida de São Pedro - onde tantas vozes famosas ecoaram pela Maré, poemas e melodias dos mais belos fados do nosso Destino.
Hoje aqui, num livro que sublinha um século e meio de histórias da História buscamos a raiz, o húmus e a essência, da terra, das pessoas, da sua vivência social e cultural. Hoje, em jeito de trilogia conjugada - Aniversário, Livro e Autor - resgatamos a nossa identidade ilhoa.
É por isso uma honra e um privilégio estar aqui neste momento, nos 150 anos da Filarmónica Liberdade Lajense, no lançamento do livro esperado e merecido, e convivendo com o seu autor, Comendador Ermelindo Ávila, reconhecido historiógrafo das ilhas dos Açores e, porventura, o decano dos jornalistas portugueses em plena actividade. É um momento singular e único, desfrutar do seu saber e experiência, do seu exemplo de tenacidade, lucidez, inteligente perspicácia, amor à casa e às causas, na sua escorreita escrita de fino recorte literário. Este livro é mais um exemplo das suas pesquisas, da sua prodigiosa memória, do seu trabalho de exímio pesquisador, das suas relações intergeracionais através de cartas e outras correspondências.
E porque eu não saberia dizer melhor recorro às palavras de meu antigo professor, escritor e nosso comum amigo, Dr. Fernando Aires, para uma definição mais profunda e isenta sobre Ermelindo Ávila, autor, coordenador, deste belíssimo documento que hoje constitui mais uma peça literária da sua vasta obra e uma relíquia para a Filarmónica Liberdade Lajense.
“… Genuíno açoriano das Lajes do Pico, homem prestante, investigador das figuras e dos factos da sua terra natal… Vida longa e cheia, a de Ermelindo Ávila. Vida útil. Assim se chega à conclusão que a vida pode até nem ser aquela coisa cinzenta, que nos definem tantas vezes como destino.” Sem dúvida, um dos Mestres da nossa cultura e, por isso, sem idade. Os Mestres não têm, pelo menos, a idade cronológica. Têm outra. Aquela – a única em que acreditamos – a da espiritualidade e, por isso, a da Atemporalidade. Ermelindo Ávila com simplicidade, o papel de guardião da memória. Em retratos singelos, quase com ardor apostológico, fala de pessoas e de lugares sagrados, deixando uma visão “ bondosa” de alguns açorianos ilustres e de outros menos ilustres, na convicção de que os homens, por modestos que sejam, deixam sempre a sua marca pessoal nos variados caminhos da história. …Tudo isso pela emoção de encontrar na espontânea flutuação de suas vidas os sinais que fazem dos homens seres humanos “. Deixe-me dizer-lhe. Obrigado Senhor Ermelindo.
Este é um livro que fala de história, de tradição, de música. A música que levamos com o sonho. A viola na mão, o clarinete nos lábios, a chamarrita na saia rodada de um salão de festas como este, e quase sempre da Irmandade do Espírito Santo.
Trazemos a viola ao peito desde o século XV, desde os tempos do Povoamento, em plena época expansionista dos descobrimentos. Assim, musical e poeticamente, muito bebemos dos povos do norte de África.
Os jograis - poetas líricos e cantores, foram os grandes obreiros das modas e das coreografias (marcação do balho) que o povo começou a usar. Sempre esteve na tradição do povo português cantar em coro ou ao desafio, e balhar, quer nas grandes romarias, ou nas suas próprias bailias.
A nossa canção popular é inconfundível: As circunstâncias do isolamento e do clima mais as naturais influências flamengas, africanas, espanholas e outras, fizeram com que ao longo de séculos, criássemos um património musical que se identifica na nossa posição insular e atlântica.
Depois há os nossos sentimentos. A verdade. A terra e o mar. O amor.
A canção popular nasceu do amor do trabalho.
A mãe acalentando o filho criou uma canção e no arranjo da casa, outra.
Homem trazendo os bois, inspirou-se num canto dolente. Trauteou canções cavando a terra. E a viola era sempre o grande chamariz, a grande motivação. A viola da terra de dois corações. Com todos os corações: Eram balhos em casa dos mordomos, do imperador do Espírito Santo, ao Menino Jesus, às estrelas, nas matanças de porco.
O Maestro Francisco Lacerda, por exemplo, figura maior da cultura açoriana que em Lisboa, Paris (contemporâneo de Debussy) por toda a Europa, dono de uma viola de dois corações era o exímio e apaixonado tocador, sem nunca deixar de contribuir com as festas da sua terra, com as filarmónicas do seu lugar, foi inclusivamente maestro da Filarmónica Harmónica Furnense - Furnas São Miguel.
Conheço relativamente bem todas as Filarmónicas dos Açores, e muitas das que se constituíram nas nossas comunidades Açorianas espalhadas pelo mundo sobretudo, na Nova Inglaterra, Califórnia e Canadá.
Foi através da arte musical que as populações, mais ou menos isoladas, foram desenvolvendo as suas estruturas mentais na “leitura” da pauta da música que substituía na formação, a alfabetização.
Muitos dos elementos das filarmónicas eram pescadores, agricultores, homens do campo e do mar, que ao fim do dia, depois das trindades, se juntavam na Casa da Música para aprender, ensinar e tocar. Os mais velhos ensinavam os mais jovens e estes com eles aprendiam, juntando assim a arte diferentes gerações. Só os homens e os rapazes tocavam nas bandas. A entrada de elementos femininos aparece já na segunda metade do século XX.
É curioso o estudo feito pela Dra. Gabriela Castro, da Universidade dos Açores, ela que por razões de afinidade familiar, se cruza com a história da Filarmónica Liberdade Lajense.
“Os ensaios a solo por vezes tornavam-se uma “chinfrineira” para os ouvidos de quem, passando pela rua ou habitando as casas vizinhas, os ouvia tocar. Cada um tocava para o seu lado, apelando à concentração e, simultaneamente, abertos à crítica do Maestro ou de outros companheiros. Estes ensaios a solo eram o treino e a aprendizagem necessária, em condições menos próprias, para depois integrarem o conjunto final. Porque se treinava assim? Porque ninguém levava para casa o instrumento que tocava. Este ficava sempre guardado no local dos ensaios; em sede própria, quando a havia, ou em locais designados para o efeito, as denominadas “ Casa da Música “.
As bandas filarmónicas foram os conservatórios populares, os centros de formação de mentalidades, as escolas do povo. No início, aquando do seu aparecimento grande parte da população era analfabeta. O modo de viver era outro. Desde cedo as crianças começavam a ajudar os pais nas lides da família. As moças, nas lides da casa e nos cuidados com os irmãos mais novos; os rapazes no campo ou na pesca, nas “vacas” quando as tinham, ou na agricultura. São muitas dessas pessoas os músicos das bandas das nossas freguesias.
Na generalidade, cada freguesia possuía a sua banda de música, umas mais ricas que outras, mas todas elas com o mesmo sentimento de orgulho por representarem a sua freguesia. O sentimento da rivalidade existia e era saudavelmente utilizado no brio com que cada banda se apresentava nas festividades religiosas e profanas”
Ou como diz num excelente texto síntese a propósito dos 140 anos da Filarmónica Liberdade Lajense, a Doutora, Maria de Jesus Maciel:
…”Hoje, apesar de existirem outras solicitações mais atraentes, o valor das filarmónicas mantém-se, continua a ser escolha de muitos jovens…e o seu valor não se limita apenas à música. Podemos dar como exemplo a própria Liberdade Lajense. Criada num ambiente, onde as manifestações culturais e artísticas foram significativas, a filarmónica tornou-se portadora da herança recebida, não só pelos intercâmbios que efetua, mas na medida em que acolhe, como agora faz no seu espaço- o mais adequado e moderno de tantos por onde passou, fruto do trabalho de gente empenhada, eventos de natureza cientifica, social, educativa, cultural e festiva”.
Embora pareça distanciado, a verdade é que vivi dentro de casa na força da minha infância e adolescência, o amor à terra, e às coisas da arte que me deram posterior percurso de vida, através da nossa Filarmónica.
Embora meu avô Manuel Moniz da Papuda tivesse tocado na Banda Nova – a Artista Lajense – cuja história, em minha modesta opinião, deveria ser melhor investigada e fazer parte integrante da História da Liberdade Lajense para assim melhor percebermos a Sociedade Lajense, da implantação da República até à década de 30 -,a verdade é que, a começar pelo Tio, Francisco Moniz e Melo, carismático Regente durante mais de 30 anos até aos meus primos, Gilberto, Leonel, Tibério e Francisco José, sem esquecer os primeiros passos de dança com a prima Orlanda ou sempre lembrado, Tio, Joaquim Alves Moniz, sempre vivi dentro de casa, sobretudo, através das mulheres garbosas no preparo da farda, do farnel e dos bolos e iguarias para os convívios especiais, os passeios de camioneta pela ilha, o respeito, a disciplina e o amor superior, pelo significado nobre que era representar o nosso lugar através da arte e da música, da nossa Filarmónica.
Como a minha, tantas são as famílias que aqui cresceram ou aqui foram projectadas, esboçadas no seu sonho de procriação, através de namoricos de ensaios, tocatas, bailes e digressões.
Ficam-me memórias aguareladas muito intensas da vida artística social e recreativa desta filarmónica.
As aulas pacientes e dedicadas de José Viveza, o eriçar da bandeira em sinal de Baile (“hoje à baile a bandeira está fora”…) semelhante ao foguete da baleia ou anúncio de cinema, a preparação do palco com colchas, pedras lávicas e hortênsias da estrada, o ensaio e as exibições com sonoridade única dos Flechas, (Manuel Xavier Soares – acordeão, João Azevedo- Trompete, João Soares- Sax Alto, Manuel Soares- Clarinete, Gilberto Goulart- Saxofone, Carlos José - e José António (Boleta) - Bateria, Gilberto Goulart, Carlos Moniz e Fernando Luís- Vocalistas); Oh Lady Mary, e Delilah, os filmes do Magano e documentários com golos de Eusébio e os fados da Amália, o sucesso que foi Marcelino Pão e Vinho para 6 anos, o cinema português com os seus protagonistas, (António Calvário e Tony de Matos, cantaram na Filarmónica), Gente Nova, de Santa Maria, com o grande Mário Mariante, o “ Açorianíssimo” de Victor Cruz, Osvaldo Medeiros e Hermínio Arruda, os bailes de gala de despedida de músicos chamados pela emigração, os bailes de verão de homenagem com bingo à “Americana”, os colóquios, as sessões de esclarecimento dos partidos políticos da Nova Autonomia Democrática, os congressos, as jornadas escolares interdisciplinares, os casamentos e a canja de galinha da Sra. Claudiana da “Pensão Velha” a sair quentinha da cozinha de apoio, feita no palco da esplanada.
Tantas e tantas recordações, dos jogos tradicionais portugueses; cartas, dominó, croqui, vinte e cinco ou” piriquita”, até ao chocolatinho, a cerveja Cuca, laranjada e pirolito; à cerveja sempre fresca do poço de maré ou do frigorífico da fábrica de peixe, sem esquecer a famosa bifana, trazida por César Mateus (o Mateus das Águas).
Ele com a ajuda preciosa de António Metilde que em cada “matança de porco” ia pedindo um pouco de carne para a filarmónica, até à cumplicidade do genro Manuel Rogério, e o Sr. Faria- padeiro-, ambos devotos músicos da filarmónica e empregados distintos da firma, Edmundo Machado Ávila, conseguiram a arte de arrumar a carne no frio e a melhor cozedura de papo-seco, para a bifana de alho e pimenta na chapa, que Carlos Pereira iniciou sob os ensinamentos daquele saxofonista continental.
Há um ano estava aqui no jantar/convívio da Filarmónica quando foi lançado o repto da viagem à Califórnia, pelo Sr. Presidente da Câmara, Eng. Roberto Silva, na presença de outros convidados, entre eles, o comendador Manuel Eduardo Vieira. Iniciativa complexa e exigente na sua orçamentação e capacidade organizativa. Acompanhei com detalhe todos os pormenores da viagem e quis o destino, por razões profissionais, que três semanas depois da grande viagem à América, também eu estivesse a conviver com as nossas comunidades da Baía de São Francisco, dos vales de Santa Clara, e São Joaquim e a jantar em ambiente familiar de requinte, na casa deste benemérito lajense. Posso comprovar do grande sucesso que constituiu esta digressão histórica da Filarmónica Liberdade Lajense, por terras da Califórnia.
Podem orgulhar-se todos os que aqui prepararam e os que lá, tão bem receberam, designadamente, San Diego, mítica e bela cidade do atum em cujo salão já me comovi algumas vezes, comendo lapas e conversando com o sempre saudoso e prestável, Carlos Pereira, aqui presente, também ele tocador do Centenário, com outros 13 vivos espalhados pelos Açores, América e Canadá, - (João Saramago, Domingos do Epifânio, Gilberto Goulart, Rogério Mendonça, Manuel Eduardo Lima, Manuel Artur Quaresma, Tibério Moniz, Manuel Joaquim Ávila, Manuel Soares, José Ermelindo, José Almério, Ritinha, Francisco Machado “Tabaco”),- agora distinto Presidente de uma das 14 filarmónicas portuguesas da Califórnia, precisamente, a União Portuguesa de San Diego, sinal que o amor a esta instituição se multiplicou e prolongou pela fundação de outras congéneres espalhadas pelas comunidades açorianas.
Neste contexto uma palavra especial para António Fernando Macedo, antigo tocador,- filho do baleeiro, João Lelé, Vice-Presidente e no próximo ano Presidente da IES – Irmandade do Espírito Santo de San José da Califórnia, que também muito trabalhou para que no pormenor de cada detalhe se ressalva-se o sucesso global da digressão.
Qual quer um deles me dizem que nesta Filarmónica Liberdade Lajense não aprenderam apenas música, mas a ser homens, organizados e organizadores, com princípios e valores, homens que hoje a partir da ilha são líderes comunitários em grandes cidades norte americanas. É muito gratificante perceber a profundidade sociológica e cultural de uma instituição como esta.
Este é um livro aberto e inacabado, porque cada um de nós terá sempre uma história intima e enriquecedora para contar, para acrescentar ao imaginário e ao poder da oralidade; este livro de Ermelindo Ávila é a matriz umbilical, porque fala da Fundação, dos 13 Regentes, dos Estatutos, dos Tocadores, do Instrumental, do Fardamento, das Casas de Ensaio, das Contas, dos Títulos Honoríficos, das Vantagens da nova sede, dos Intercâmbios, e do Primeiro Centenário de cuja imagem retenho o desfile e o estandarte oferecido pela Câmara Municipal, nas mãos de um dos seus mais valiosos e elegantes símbolos, o Sr. Gilberto Castro, mais tarde glamorosamente erguido pela Carmélia Alves, durante muitos anos seu porta-bandeira.
Mas num dia como hoje é imprescindível sublinhar os nomes de, João Pereira de Lacerda, Francisco Pereira de Lacerda e José Silveira Peixoto, tidos como fundadores pertencentes à “elite lajense” da mais antiga instituição musical da ilha do Pico, a segunda do ex- distrito da Horta e uma das mais antigas dos Açores, criada a 14 de Fevereiro de 1864; lembrar o nome do seu primeiro regente, José Augusto, da cidade da Horta e que saiu a tocar na procissão da Penitência, no primeiro domingo da Quaresma de 1864 e tomou parte na primeira procissão de Lourdes a 30 de Setembro de 1883, e na bênção da primeira pedra da nova Matriz, a 7 de Julho de 1895, ficando indelevelmente marcada ao maior culto de religiosidade baleeira, a Festa Centenária de Nossa Senhora de Lourdes.
Imprescindível é dizer os nomes que 150 anos depois, se mantiveram a conduzir com grande esmero e dedicação os destinos da Filarmónica Liberdade Lajens numa direcção presidida por Francisco José Vieira Soares, coadjuvado por João Ávila Brum (Saramago), Dário Pimentel, Luís Vieira, José Pimentel, Francisco José Moniz e Tomás Rosa, Amélia Gonçalves, Cristina Chu, Tiago Bettencourt Melo; Assembleia Geral- presidida pelo Dr. Manuel Francisco Costa, António Pimentel e Ângela Pereira, e o Conselho Fiscal,- constituído por D. Fátima Oliveira, António Fernando Bettencourt e Gonçalo Macedo.
Das minhas imagens guardadas na memória, permitam-me ainda sublinhar muitos tocadores baleeiros e/ ou jogadores de futebol, como Manuel Vieira Soares, Manuel Sertório, ou Manuel Joaquim Ávila - o Tarimba, actividades sempre difíceis de conciliar sem deixar nenhuma de fora… Lembrar o mais antigo tocador em actividade, José Ermelindo Pimentel, que antes de eu nascer já tocava na banda; o mais novo Adriano Bettencourt de 10 anos de idade; mulheres distintas como Fátima Oliveira, Doutora Maria de Jesus Maciel e Profª Inês Moniz Azevedo; homens de uma dedicação de uma dedicação extrema, desinteressada e apaixonada, como Flamínio Rosa, a qualidade criativa, artística e pedagógica no ensino da música da Família Xavier,- incontornável no meio musical açoriano,- e de entre ela a figura do maestro Manuel Xavier Soares responsável entre outras pela criação da Orquestra Municipal, o actual maestro António Bettencourt, também ele multifacetado instrumentista e criativo fundador de grupos de cantares como Raiz Musicante e Trovas do Sul, autor e compositor que bem merece o sonho da gravação de um Cd dos 150 anos; da Direcção do Centenário- João Azevedo, António Pereira e Manuel Rogério- homens de confiança e afilhados do regente Francisco Moniz de Melo, (Alfaiate).
Ilhéus perdidos no Atlântico. Não há ilha que não tenha a sua filarmónica, feita de alma, persistência e devoção. Como diz de forma sublime o Presidente da Câmara das Lajes do Pico, Eng. Roberto Silva:
“Na terra e no céu, no profano e no divino, a filarmónica que nos satisfaz o coração, ilumina o espírito e abrilhanta os ritos sociais e cristãos, foi e há - de ser sempre organização, dedicação e sacrifício”.
Assim foi e assim será. Permitam-me que vos diga neste espaça a narrativa poética “Os Filarmúsicos” do meu último livro “ Já Não Vem Ninguém” dedicado a Manuel Xavier Soares e sendo uma homenagem a todos os filarmónicos foi inspirado no que conheço e sinto da Liberdade Lajense. Na opinião das professoras de literatura da Universidade de Toronto, Aida Baptista, Ilda Januário e Maria João Dodman, o texto da minha autoria mais iconográfico e ilhéu e, por isso, porque já o vi reproduzido por vários catálogos, exposições, notas de efeméride, faz todo o sentido que aqui, em sede própria o reproduza numa data tão lembrada e tão importante, para todos nós amantes da Filarmónica Liberdade Lajense.

OS FILARMÚSICOS


À memória de Manuel Xavier Soares

“trazem nos lábios o gosto da terra, nas mãos a arte das sementeiras e no andar a cadência de todos os rituais do silêncio. caminheiros da devoção, ao sol, à chuva, ao vento, arrastam a melodia do coração pelos séculos da ilha. são peregrinos de todas as preces. são músicos. são povo. são músicos do povo. são a alma entoada, sagrada, o limite de todas as forças herdadas. mar e terra imensos. vapor sem carga. avião sem passageiro ou porto de abrigo com vento norte. sinos de igreja morrendo ao sol - posto com cheiro a trindades.
o atlântico, o isolamento, os flamengos, os espanhóis, os africanos. os sentimentos. o amor à terra, o mar, a canseira, a dolência, a viola, o balho, a festa, a essência da alma no adro da igreja, no coreto do jardim, na sala de ensaio nos frios de Inverno. o senhor padre, as arrematações, o peditório para a igreja, o arraial da festa e viva ao divino espírito santo.
a atmosfera cinzenta, o olhar abreviado de horizonte sem limites. o cansaço. a resignação. a padroeira, o apego à fé, apelo da liberdade. a criação.
é o meu nobre povo, no seu passo dobrado. a música nova, a musica velha, os alinhados, os desafinados, os sobredotados, o velho do bombo, o fadista dos pratos, o faroleiro do bombardino, a menina bonita do clarinete.
o maestro. o mestre e o regente. a filarmónica da nossa terra é a melhor do mundo, que a minha terra é a minha ilha e a minha ilha é a minha gente.
são, Recreios, Pastores, Lavradores, Rurais, União e Unânimes, Fraternais, Liberdades, Musas e até Rivais. Centenárias, muitas, Liras, quase todas…
as nossas filarmónicas – conservatórios do povo – são a história de cada lugar de cada ilha, a ilha espalhada pelo mundo das américas, canadás e brasis. a ilha partitura de todos os hinos.
a história. o seu imaginário, o rasgo de sedução. a memória. a voz e o coração.
os filarmúsicos são povo perfilado na expressão genuína de uma Lira “

É fácil falar do passado. É fácil esquecer o presente. Difícil prever o futuro. Sempre mais nublado e cinzento como os tempos que correm. Por isso recorro às palavras sábias e experientes do prefácio assinado pelo Presidente da Assembleia Geral, homem da ilha e da história, do património, a voz pura da nossa lírica mais trovadoresca, da nossa cultura académica e popular: Manuel Francisco Costa:

“ Queremos que neste lagar e nesse alambique da memória, saibamos prensar e destilar a herança que carregamos e que queremos que alimente e fecunde o nosso presente e o nosso futuro. É preciso que transformemos esta liturgia do passado num projecto de revigoração e regeneração futuras. Para que a velha mística e o antigo carisma garantam a passagem de testemunho e estimulem a capacidade de adaptação, reformulação, inovação e reinvenção a que estes agrupamentos musicais estão historicamente sujeitos. Só assim valerá a pena.”
E agora, depois destas palavras, da música, só a música sem palavras, que ela tem outro sabor sensorial, outra fecundidade. O silêncio do desfolhar das páginas deste pequeno mas imprescindível livro na ânsia do que lá está escrito e do que, todos os dias, cada um de nós lhe pode acrescentar enriquecendo a história sentida de 150 anos, com muito ardor, denodo, empenhamento, canseiras, com muito amor às Lajes, à ilha do Pico, à Música, à Filarmónica Liberdade Lajense.

Obrigado, Senhor Ermelindo Ávila, Obrigado Lajes do Pico.
Parabéns pelos 150 anos de Vida Artística.
Viva a Filarmónica Liberdade Lajense.


Salão da Filarmónica Liberdade Lajense
Lajes do Pico, Semana dos Baleeiros, 29 de Agosto, de 2014

Sidónio Bettencourt

 

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